Sunday, February 1, 2009

BLOCKBUSTERS VAO DOMINAR O MERCADO CINEMATOGRAFICO EM PORTUGAL

O nosso mercado de distribuição é estranho. Apesar dos cerca de 300 écrans que actualmente Portugal possui, estes repetem até à exaustão os filmes mais comerciais, seguramente norte-americanos, e certamente provenientes das grandes multinacionais. Acrescida a esta situação, quando estreia um chamado “blockbuster”, isto é, um filme de grande orçamento, este ocupa logo entre 50 a 80 écrans e, se estreiam dois, mais de metade do mercado cinematográfico português tem exclusivamente dois filmes em exibição! Este ano vai ser particularmente complicado para que gosta de cinema e da sua diversidade dado estarem previstas estreias de 14 blockbusters, isto é filmes com custos de produção entre os 150 e 300 milhões de euros!
Daí que nos Natais, neste Verão que se aproxima – a Primavera é mais virada para o lançamento dos filmes dos Óscaes - as opções não são muitas nas salas. Basta ver os jornais, e neles os filmes em cartaz , e logo nos apercebemos que não há opções para quem vai, pelo menos uma vez por semana ao cinema - os filmes em exibição são os mesmos em todas as salas!
Lisboa e Porto têm aí alguma sorte.
No Porto há as muitas salas da UCI e do Dolce Vita e em Lisboa, entre outras, como as do Monumental,as 14 do Centro Colombo. Se em Lisboa a lógica é a de manter indefinidamente em exibição os filmes da empresa detentora dos direitos de exploração das salas, às vezes com algumas excepções, no Porto (ou melhor, em Gaia), na UCI, há uma pequena abertura aos exibidores independentes e lógicamente a diversidade de filmes que aí se podem ver é diferente. Daí também o grande êxito destas salas em relação às dos outros multiplex do Grande Porto que, apesar de funcionarem bem (pelo menos assim o cremos) assumem todos o mesmo tipo de programação, não deixando alternativas ao espectador de cinema - tanto faz ir a Gaia, à Maia ou ao Norte Shopping, em Matosinhos, que os filmes são os mesmos em exibição.
Quem quer ver cinema diferente tem de procurar, no Porto, os Cidade do Porto (em grande crise) e em Lisboa os King e os multiplexes do Saldanha que “misturam” um pouco os ditos “blockbusters com algum cinema de outras proveniências!
Assim vai o mercado de exibição em Portugal, numa altura em que os distribuidores independentes, e que não fazem exploração de salas, dependem do multiplex da UCI em Lisboa, no edifício do Corte Inglês, o que parece estar a alargar um pouco o mercado de exibição em Portugal.
No resto do país o problema é diferente.
As opções dos exibidores ditos “independentes” das distribuidoras “jogam” no resultado seguro e “contratam” exclusivamente os “blockbusters”. Enfim as alternativas para ver o outro cinema, que não o norte-americano, são nulas (ou quase). Ficam aí a garantir essa área os cineclubes que ainda sobrevivem, as associações juvenis ou locais e os poucos agentes culturais que pretendem assumir uma postura de “contra mercado”.

A distribuição em Portugal

Historicamente as salas de cinema sempre foram pertença de exibidores independentes. Pessoas que gostavam de cinema e que apostavam num “negócio” aparentemente rentável.
Tinham a visitá-los semanalmente os “vendedores” das distribuidoras existentes, cerca de 20. Traziam os seus catálogos, com as chamadas “folhas de apresentação do filme” , que incluiam uma sinopse, um anúncio tipo e algumas frases publicitárias, de forma a que os exibidores se interessassem pelos filmes que lhes eram propostos.
Os exibidores escolhiam os filmes e…aí estavam eles em exibição.
Filmes de todos os tipos eram “servidos” pelos distribuidores de então, desde o filme de kung-fu proveniente de Hong Kong, aos melodramas e musicais indianos, passando pelos filmes de terror da Hammer e da RKO, pelo cinema italiano de Visconti e as sugestivas comédias eróticas com as Lauras Antonelli´s e os Marcelos Mastroianis’s de então, pelos filmes polacos de Polanski, os suecos de Ingmar Bergman, pelo novo cinema norte americano com os “Easy Ryders” ou filmes como “A Primeira Noite” de Mike Nichols, pelo cinema francês, emerergente da Nouvelle Vague - com os Claude Chabrol, os Godard e os Truffaut, tudo a par das superproduções da 20Th Century Fox, da Universal ou da Warner, isto para não esquecer a velha Rank.
Havia também opções claras para o espectador de cinema - salas dedicadas a géneros – o fantástico, as cowboyadas, o cinema de família, o cinema erótico enfim, quem fosse a um Trindade ou Batalha no Porto ou a Eden ou ao Tivoli em Lisboa, sabia que ia ver um filme de família, quem fosse a um Águia d’Ouro ou a um Olímpia no Porto, ia ver um filme de terror ou uma cowboyada com os Terence Hill e Bud Spencer da altura e se fosse a um Estúdio, no Porto, ou a um Nimas ou Apolo 70, em Lisboa, seguramente que ia ver um filme do chamado “cinema de autor”.
Quem escolhia os filmes, quem os programava para essas salas, sabia o que queria, que público pretendia atingir e, que filmes escolher de entre as muitas distribuidoras existentes no mercado.
Veio então a crise.
Dizia-e que era o vídeo – então recém nascido – que era o culpado, mas muitas outras razões justificam estas falências contínuas que o mercado português sentiu na década de 80 e 90 – a primeida das quais a falta de renovação das salas, o aparecimento dos multiplex com uma grande qualidade de projecção e um conforto incomparável para o espectador e, a ideia de que o público português queria ver TODO o mesmo filme!
Começaram assim as salas isoladas montadas em cidades grande e medias a fechar portas e naturalmente os distribuidores que não tinham os tais filmes que TODOS queriam ver, a fechar portas.
Entretanto o nosso mercado cinematográfico ficou minúsculo. Com quatro/cinco distribuidores e com cerca de 90 écrans em todo o país, isto na pior das fases, nos finais da década de 80.
Depois, aos poucos e poucos um distribuidor começou a comprar essas velhas salas – a actual Zon Lusomundo Multimédia - e os outros, mais tarde, seguiram-lhe o exemplo – a Castello Lopes, a Atalanta, a LNK.
Rápidamente o mercado se transformou – deixou de haver salas independentes, sobretudo nas grandes cidades - e a existir uma ligação directa entre o distribuidor que possui os direitos dos filmes e as salas de que dispunha.
Com isto desapareceram também as distribuidoras mais pequenas – as independentes que não tinham salas - e o Mercado virou às avessas - ficou nas mãos, não dos exibidores, mas dos distribuidores que exploram até à medula os investimentos que fazem nos filmes cujos direitos detêm.
Só muito recentemente com o aparecimento das salas UCI, ex AMC, no Porto e as do Corte Inglês em Lisboa, salas que são independentes dos meios de distribuição em Portugal e algo começou a mudar. Aí umas poucas distribuidoras independentes resurgiram a tentarem “furar” o sistema de distribuição existente, para aí colocarem os seus filmes. No fundo uma “migalha” no grande bolo que é actualmente o mercado do cinema em Portugal…mas também é um primeiro passo para a diversificação desse mesmo mercado.
jun 12, '07

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